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Como negócios de impacto estão atravessando a crise da Covid-19?

Como negócios de impacto estão atravessando a crise da Covid-19?

Três empreendedores contam como se adaptaram ao cenário da pandemia e o que esperam para 2021

“A pandemia freou investimentos. Pequenos negócios que estavam dialogando com investidores para começar um trabalho ficaram estagnados. As startups que estavam em busca de investimento ou próximos de obtê-lo realmente frearam. Então os negócios de impacto não fugiram à regra da economia em geral. Cada empresa sofreu de acordo com as suas especificidades. Agora [outubro] está voltando ao normal”, explica João Santos, co-fundador e gestor da Kaleydos.

Entrevistamos três empreendedores de impacto cujas histórias ilustram e detalham a análise de João. Em um primeiro momento, a pandemia afetou profundamente os negócios, forçando-os a uma readaptação. A partir de agosto, principalmente, nota-se uma retomada da economia e as startups em geral começam a se recuperar. Há ainda grande esperança para o ano de 2021, especialmente se houver vacinas disponíveis já no começo do ano, como previsto.

Início da pandemia e da quarentena forçaram uma pausa nas operações de startups de impacto

No geral, embora necessária para conter a pandemia, a quarentena reduziu a demanda por bens e serviços e afetou o faturamento da maioria das empresas. Mas, também, abriu oportunidades para alguns negócios.

Uma startup que está vivendo as duas situações é a Kinah Desenvolvimento Profissional, que realiza recrutamento e seleção de profissionais dentro de territórios periféricos, especialmente no Grajaú, bairro na periferia da zona sul de São Paulo. “Tenho feito poucos processos seletivos”, conta a empreendedora Katiana Normandia Fonseca.

Por outro lado, uma nova oportunidade se abriu para ela: “Empresas passaram a me convidar pra fazer lives sobre como promover a igualdade racial e também me contrataram para fazer processo seletivo mais diverso dentro do ambiente corporativo”.

A WeUse, que oferece um serviço de assinatura de aluguel de roupas e promove o consumo consciente e sustentável, também teve o seu faturamento afetado.

“A gente foi bastante impactado porque trabalhamos com compartilhamento e ninguém compartilha roupa no meio da pandemia. Tivemos que pausar a nossa operação para rever os protocolos de segurança. Ficamos dois meses parados, abril e maio. Em junho a gente voltou com a metade dos assinantes que reativaram as assinaturas. Então é um impacto bem grande”, conta Carlos Alberto Silva, CEO da startup.

Guilherme de Almeida Prado, que é CEO de três negócios de impacto em diferentes setores, têm uma experiência mais diversificada para compartilhar.

Uma de suas startups, a Konkero atua para melhorar a educação financeira e oferecer informações sobre esse segmento para a classe C. Sua plataforma é referência em comparação de produtos financeiros e finanças pessoais. A cada produto contratado por um usuário, a startup ganha uma comissão.

Guilherme explica que, à princípio, esperava um crescimento da contratação de empréstimos, mas isso não ocorreu. “Os bancos travaram bastante os empréstimos e o auxílio emergencial do governo ajudou as pessoas a não precisarem buscar financiamento ou recursos de curto prazo”, explica.

Outra de suas startups, a Central da Visão, também sofreu com o início da pandemia. O negócio oferece tratamentos e cirurgias oftalmológicos a preços acessíveis em clínicas que fazem parte da sua rede. Seu principal produto são cirurgias de catarata, geralmente feitas em quem tem mais de 60 anos e, portanto, está em grupo de risco.

Antes mesmo da quarentena ser decretada em São Paulo, a empresa suspendeu o agendamento de consultas. “Falamos ‘não vamos pôr as pessoas em risco’. Então a gente parou e zeramos a receita. Depois, as clínicas fecharam e foram retomando por volta de junho ou julho”.

Um caso muito diferente é o da sua terceira startup. A Lys realiza treinamentos e capacitações via WhatsApp, para levar oportunidade de escolhas e melhoria da qualidade de vida para populações vulneráveis. “Para a Lys, a pandemia foi muito boa. Derrubou vários preconceitos em relação ao Ensino à Distância porque hoje é a única forma”.

Retomada da economia mostra que é possível sobreviver à pandemia e sair fortalecido dela

Em geral, os empreendedores notam uma retomada dos seus negócios principalmente a partir de agosto.

Guilherme comenta: “A Konkero começou a voltar em agosto aos níveis próximos do normal. Na Central da Visão, em outubro já estávamos bem. Ainda tem muito noshow, paciente que vai pegar transporte público e desiste ou que o filho, preocupado com a pandemia, proíbe de ir à consulta. Não está igual antes, mas está bom agora. E a gente cresceu em algumas especialidades, além da cirurgia para catarata”.

“Em agosto a gente já tinha recuperado a quantidade de assinantes de antes da pandemia. Já tínhamos até superado um pouco”, destaca Carlos Alberto sobre a WeUse. Embora essa recuperação seja animadora, o empreendedor enfatiza também o impacto que isso gerou. “É como se de março a agosto tivéssemos parado no tempo. Perdemos seis meses de crescimento projetado. É como se em agosto tivéssemos voltado para fevereiro”.

Mas houve também aprendizados. “A gente cresceu muito como empreendedores. Aproveitamos os dois meses sem operação para fazer melhorias internas, de processo. Quando voltamos em junho, estávamos muito melhores do que antes da pandemia”.

No caso da Kinah, a situação se alterou pouco. “Tenho outro emprego, sou educadora social do CIEE, então eu consigo conciliar as duas funções.”

Tudo passa: 2021 é o ano para voltar a crescer mais rapidamente

A expectativa, e a esperança, é que já no começo de 2021 haja vacina aprovada e disponível no Brasil. Caso isso realmente aconteça, os empreendedores esperam um crescimento mais acelerado e estável.

“A gente espera que a vacina saia logo no começo do ano, em janeiro, para que possamos crescer de uma forma mais acelerada já no início do primeiro trimestre. Temos o planejamento de atingir o break-even entre maio e junho. Nós temos uma visão otimista pro primeiro semestre. Janeiro e fevereiro vão ser complicados, mas a partir de março esperamos ter um crescimento exponencial”, explica Carlos Alberto.

O distanciamento social acabou acelerando a digitalização de muitos setores. Guilherme acredita que isso deve beneficiar a Konkero e a Lys.

No caso da Konkero, ele opina: “Acho que tem um lado bastante positivo. Muita gente que pagava boleto em lotérica descobriu que dá pra pagar pelo celular e que isso é muito mais conveniente. No médio prazo isso vai ser bom porque acelerou a digitalização”. Já no caso da Lys: “Estou trabalhando o cenário de não ter nada presencial no ano que vem… acho que melhorou muito a aceitação do EAD. Mesmo que um gestor tenha ‘n’ preconceitos, vai ter que fazer”.

Já Katiana pensa em tornar a Kinah parceira de consultorias de diversidade maiores que a dela, mas que não trabalham no seu território. “Porque eles não vêm até o extremo da periferia onde eu estou. E aqui continua sem ninguém”.

Para resumir as expectativas, João Santos acredita que “o ecossistema vai voltar a ter grande pujança e crescimento porque está vinculado a uma macro tendência global que não tem volta. Isso vai ter uma força de ativação superior ao que possa ser freado com esse tipo de pandemia. Haverá uma retomada grande de investimentos, de negócios florescendo e o ecossistema se fortalecerá de uma forma geral”.

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