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Três empreendedores de impacto contam como receberam seus primeiros investimentos

Investimento startup

Aprenda com a experiência de quem já recebeu aportes de capital financeiro para investir na consolidação dos seus modelos de negócios

Você teve uma grande ideia para um negócio de impacto que pode ajudar a solucionar um problema socioambiental e trazer retorno financeiro. Reuniu um time vencedor, fez um ótimo MVP e já está no mercado. E agora está pensando em como seria importante ter um investidor para crescer mais rapidamente. Para ajudá-lo nesta preparação, Kaleydos e Pipe.Social conversaram com três empreendedores de impacto, que compartilharam as suas experiências na captação dos primeiros investimentos de suas startups e o que aprenderam neste processo.

Contribuíram para essa matéria, Mórris Litvak, da Maturi; Ronaldo Tenório, da Hand Talk, e Anderson Morais, da Agenda Edu. Confira abaixo o que eles têm a dizer para ajudar novos empreendedores a conquistar seu primeiro aporte de capital.

Boa leitura!


Este é um conteúdo da série:


Conheça a jornada de investimento das startups

Maturi – Uma espera cautelosa pelo melhor momento e melhor parceiro

A Maturi surgiu em 2015 como uma plataforma que conecta profissionais com mais de 50 anos a empresas que procuram por colaboradores experientes. Com o tempo, evoluiu para oferecer outros serviços ao seu público, como conteúdos digitais que abordam temas que vão de tecnologia a empreendedorismo, autoconhecimento e longevidade.

Seu fundador, Mórris Litvak, esperou quatro anos para fechar o primeiro contrato de investimento da startup. Em 2018, participou do Programa Realiza!, uma parceria entre Kaleydos e Quintessa que tinha o objetivo de apoiar o desenvolvimento de negócios de impacto em estágios de validação e prepará-los para a captação de investimento. Em outubro de 2018, a Maturi foi a vencedora da etapa final do programa e passou a negociar um investimento com a Kaleydos. Dez meses depois, em julho de 2019, fechou o contrato, no valor de R$ 300 mil.

Nesse momento, a entrada da Kaleydos ajudou a convencer dois investidores-anjo (José Carlos Adri Vasconcellos e Renato Kocubej Soriano, sócios da Telehelp, uma empresa de monitoramento emergencial para idosos) a também apostarem na startup. Segundo Mórris, “eram pessoas com quem eu já falava antes. Tinham interesse em investir, mas ainda não viam muita possibilidade de retorno. Com a Maturi um pouco mais madura, e com a entrada da Kaleydos, eles quiseram entrar juntos, na mesma rodada.”

De perfil cauteloso, o empreendedor não teve pressa em receber o primeiro investimento. Antes de fundar a Maturi, ele já havia vendido uma empresa de desenvolvimento web e o lucro dessa venda garantiu a sua subsistência pelo período de dois anos. Após esse período, o faturamento da startup já era suficiente para tirar um pró-labore para si. E após mais dois anos recebeu o investimento da Kaleydos em conjunto com os dois investidores-anjo.

Esse investimento não era necessário para manter a operação da empresa, mas foi importante para crescer. “Sem investimento a gente ia ficar só se mantendo, sem conseguir avançar muito para as próximas fases”, explica Morris.

Hand Talk – um rápido começo

Uma jornada muito diferente da Maturi, e da maioria das startups, é da Hand Talk, que recebeu o seu primeiro investimento quando o negócio ainda era apenas uma ideia.

Em 2008, o empreendedor e CEO Ronaldo Tenório teve a ideia de uma plataforma que faz traduções automáticas para a língua de sinais por meio de um intérprete virtual chamado Hugo. A startup desenvolveu um aplicativo que traduz automaticamente o áudio de um texto para Libras e também oferece aulas em que o usuário pode aprender seus primeiros sinais em Libras e American Sign Language. Além disso, um plugin que pode ser incorporado em sites contribui para que a navegação dos surdos seja plena.

Quatro anos mais tarde, em 2012, ele e dois amigos – Thadeu Luz (Diretor de Inteligência Artificial) e Carlos Wanderlan (Diretor de Tecnologia) – decidiram colocar a ideia em prática durante um desafio de startups em Maceió, o Demoday Alagoas. Os três apresentaram um protótipo simples e venceram o desafio. Em seguida, receberam um investimento da banca de investidores-anjo que estavam avaliando as startups, no valor de R$ 200 mil.

“Foi tudo muito rápido. Eu nem entendia muito bem o universo das startups e de investimento-anjo. De uma hora pra outra, a gente tinha uma ideia na mão, um protótipo super simples e uma grana no bolso para fazer ele funcionar e colocar no ar. Então eu acho que a gente foi para um caminho bastante diferente da maioria. Tivemos um pouco de sorte de contar com esses investimentos nos primeiros passos”, conta Ronaldo.

Após o seu primeiro investimento, a Hand Talk recebeu em 2018 um aporte de R$ 2,5 milhões da Kviv Ventures e da Bossa Nova. E em 2019 um novo aporte de R$ 3 milhões, do Google, para investir em inteligência artificial.

Agenda Edu

A Agenda Edu é um hub de soluções tecnológicas educacionais para resolver os problemas do dia a dia das escolas, dos responsáveis, alunos e professores. Problemas como comunicação, engajamento, pagamentos, gestão de segurança e controle de saída, gerenciamento de cantinas e cursos de formação em tecnologias educacionais.

O negócio surgiu em 2014 durante uma Startup Weekend e foi acelerado logo após esse evento. Fez parte dessa aceleração um pequeno recurso financeiro para tirar a ideia do papel. “Foi um valor simbólico, não posso nem chamar de investimento, era quase um subsídio”, diz Anderson Morais, CEO da startup.

A partir desse evento, a startup cresceu em bootstraping até o final de 2017. Em dezembro daquele ano, recebeu o seu primeiro investimento, de quase R$ 5 milhões da Domo Invest, Bossa Nova Investimentos e Omnia Network. “Quando veio esse primeiro investimento, a gente já estava na fase de tração. O produto tinha sido validado, tínhamos ganhado uma grande base de clientes e o faturamento estava na casa de alguns milhões de reais.”

O que esses empreendedores aprenderam com as suas experiências?

Embora as três startups tenham tido jornadas bastante distintas em relação aos seus primeiros investimentos, os empreendedores compartilham aprendizados muito parecidos.

A importância do fit: “O dinheiro acaba, mas a presença do investidor dura muito mais.”

O que todos os empreendedores concordam é que deve haver um “fit” com os investidores. Ambas as partes devem ter afinidade, compartilhar dos mesmos valores e objetivos e ter um bom relacionamento. Em outras palavras, devem ser capazes de estar no mesmo barco e navegar para o mesmo destino.

“O dinheiro acaba, mas a presença do investidor dura muito mais. Procure pessoas boas, que tenham os mesmos valores que você. Isso vai fazer muita diferença lá na frente. Não queira apenas um financiador do projeto porque ele vai ficar batendo na sua porta o tempo todo perguntando se você já tem retorno. Tem que ser alguém que curta a jornada com você, que não queira somente o retorno lá na ponta”, explica Ronaldo.

É também importante que o investidor leve para o negócio mais do que dinheiro. Um bom investidor também aporta conhecimento (especialmente nas áreas em que o empreendedor não domine) e traz uma boa rede de contatos, de parceiros e potenciais clientes. É o denominado smart money.

Anderson explica: “a gente tinha uma necessidade muito grande de ter investidores super qualificados. De preferência que já tivessem sido empreendedores, para nos ajudar a melhorar a nossa empresa e fazer dela um negócio realmente escalável. O nosso board member, vindo da Domo Invest, foi o Rodrigo Borges (fundador do Buscapé). Então isso foi o principal motivo do fit: ter alguém que entendia muito e que estava disposto a mentorar, a levar a gente pra outro patamar como empreendedores. É o que a gente precisava porque já tínhamos um produto com market fit validado.”

No caso de negócios de impacto, o investidor, é claro, deve também estar interessado em gerar impacto social positivo, além de ter retorno financeiro.

Sobre isso, Mórris comenta: “Em 2018, quando comecei a buscar investimento de fato e a conversar com algumas pessoas, senti falta de um fit cultural maior no sentido de estar alinhado com o propósito da Maturi. Ou seja, de ver o nosso negócio como uma oportunidade de retorno financeiro, sim, mas também estar interessado no impacto que a gente está gerando. Eu achei muito importante o fato da Kaleydos ser um fundo que investe em impacto social. Isso é muito importante não só porque ela tem esse olhar, mas porque vai me cobrar também um relatório sobre o impacto que a Maturi está gerando. Vi um fit interessante de quem tem esse olhar para o impacto e também para o financeiro. E que pode aportar conhecimento, como tem acontecido nas reuniões que a gente faz. Eles sempre agregam em várias questões de gestão, de finanças, planejamento estratégico”.

Não tenha pressa em conseguir um investimento logo

“A pessoa precisa buscar investidor quando não está com a corda no pescoço para poder buscar com calma. Isso é fundamental. Foi um processo lento porque eu não tinha pressa. Fiz questão de ter bastante calma na conversa com os interessados”, explica Mórris, que chegou a recusar propostas de investimento até encontrar a que considerava adequada para a Maturi.

A pressa em captar recursos rapidamente pode ser prejudicial ao empreendedor. O qual pode acabar assinando um contrato em que abre mão de uma parte da empresa maior do que seria adequado. Ou se tornar sócio de um investidor com quem não compartilha dos mesmos valores e objetivos e com quem não tenha um bom relacionamento. E tudo isso terminará prejudicando o desenvolvimento do negócio.

Ter calma e critérios claros ajudará a firmar uma parceria que agregará muito mais do que somente o aporte financeiro.

“A moeda que o empreendedor tem é a participação dele na empresa. Se ele for muito diluído no começo, vai sofrer lá na ponta. Então acho que o erro que muitos empreendedores cometem é se diluir demais no começo e achar investidor só pelo dinheiro”, diz Ronaldo.

Prepare-se para fazer um bom acordo

Quanto mais preparado o empreendedor estiver, mais fácil será encontrar um investidor com quem tenha um bom fit. Assim como ajudará a assinar um bom contrato, justo para almas as partes.

“Se eu pudesse mudar algo, não seria no processo de procurar o aporte. Mas sim na negociação que a gente fez naquele momento. Porque eu acho que a gente era muito imaturo ainda pra poder discutir sobre participação. E nós talvez não tenhamos ido muito a fundo no cálculo de valuation e já aceitamos a proposta já inicial”, comenta Ronaldo. “Mas se a gente não tivesse aceito, talvez não tivessem investido na gente e nós não teríamos chegado até aqui”, pondera.

Anderson é um exemplo de empreendedor que se preparou.

“Já tínhamos sido acelerados pelo Start-Ed Lab, da Fundação Lemann. A gente se  estruturou um pouco e conhecemos a empresa que tocava esse programa, a Semente Negócios. Desse relacionamento com a Semente, depois de um ano a gente acabou iniciando uma consultoria com eles para preparar a empresa para receber o seu primeiro aporte. Foi feita toda uma consultoria de planejamento estratégico, rediscussão de missão, visão e valores. Foi criado um planejamento estratégico de longo prazo de 5 anos”, conta.

O que fez com que os investidores decidissem fazer o aporte nessas startups?

Perguntamos aos empreendedores o que, na percepção deles, fez com que os investidores decidissem aportar capital nas suas startups.

No caso do investimento que a Maturi recebeu da Kaleydos, Mórris explica:

“É suposição, mas eu acho que foi primeiro eles verem a minha paixão pelo negócio e a minha resiliência. Depois de quatro anos sem investimento, fazendo a coisa começar a crescer, já tinha uma grande visibilidade. Mas ainda estava começando a validar o modelo de negócio. Então eles viram que eu fiz muita coisa praticamente sozinho e sem investimento. Então tem aí realmente uma questão de resiliência e de uma atitude empreendedora muito forte. Isso ficou claro pra eles porque o investidor sempre olha primeiro o time, os fundadores, do que qualquer outra coisa. E aí eles acreditaram no potencial do negócio e entenderam que esse é um segmento que tem um mercado enorme para ser explorado”.

João Santos, gestor da Kaleydos, explica o que pesou mais para essa decisão:

“Primeiramente o perfil do empreendedor. O Mórris apresentou um histórico coerente, resiliente, apaixonado pelo negócio e com grande capacidade de realização. Apresentando uma empresa que em pouco tempo conquistou reconhecimento do mercado e uma ampla base de pessoas cadastradas na plataforma. Ao mesmo tempo, percebemos que o negócio precisava ser repaginado para monetizar e apostamos em direcionar o investimento nessa revisão da empresa, em um conceito de smart money e forte colaboração na gestão e na estratégia. Adicionalmente, o setor da Maturi nos atraiu por vários motivos: tendência de crescimento devido a fatores estruturais da sociedade e economia, mercado com poucos concorrentes e maior chance de implantar uma jornada de Oceano Azul, relevância social devido ao crescimento da exclusão dos maturis e arrefecimento das suas oportunidades pós carreira. Importante lembrar que a Maturi foi escolhida num programa realizado em parceria com a Quintessa, do qual participaram dezenas de startups de impacto”.

Para Anderson, a decisão dos investidores de apostar na Agenda Edu “foi baseada na qualidade do time de fundadores que estavam tocando o negócio e demonstravam um propósito genuíno. Ter capacidade de levar o negócio para o próximo passo. Também a solidez do negócio, os números históricos de crescimento dos anos anteriores. E também um pouco da visão do sonho grande, de como era interessante os próximos passos que a gente poderia dar. Então foi isso: time, histórico e sonho grande”.

“Foi o propósito, a nossa missão de impactar a vida de muitas pessoas com deficiência. E essa mistura entre uma solução inovadora e o poder que ela tinha de escala para impactar a vida de pessoas, não só no Brasil como no mundo todo”, diz Ronaldo Tenório sobre o que acha que fez os investidores apostarem na Hand Talk.

“Fundingraising é uma arte” que pode ser estudada

O empreendedor precisa entender como os investidores de impacto avaliam negócios para decidir fazer um aporte de capital.

Um caminho para esse entendimento é estudar o relatório do estudo Scoring de Investimentos de Impacto, lançado pela Pipe.Social em fevereiro desse ano e que detalha como os investidores avaliam negócios de impacto e o que buscam em empreendedores e soluções. O levantamento pode servir como guia prático de autoavaliação para empreendedores que buscam investimentos.

A pesquisa identificou vinte e dois indicadores de investimentos praticados no mercado de impacto brasileiro que podem guiar empreendedores que estão se preparando para abordar potenciais investidores. Você pode saber mais sobre eles na matéria “Como investidores avaliam negócios de impacto?”.

Também pode ser útil participar de um programa de preparação para captação de investimento, como a assessoria oferecida pelo Quintessa.

Anderson comenta sobre a sua preparação para receber o primeiro investimento, o que aprendeu com isso e o que faria de diferente, com a experiência que tem hoje.

“Quanto melhor você se estrutura para o seu aporte, mais dinheiro você recebe ou é menos diluído [abre mão de um equity menor]. Como é a nossa primeira startup, eu acho que ainda faltava muito conhecimento dos termos de contrato, do que era esperado nesse processo de validação da tese, quais eram os indicadores que deveriam estar mais visíveis no nosso deck. Faltava um entendimento maior da dinâmica do negócio e dos indicadores. No fundo, o que a gente faria de novo era ter investido ainda mais nessa estratégia de profissionalização da gestão, na melhoria dos indicadores e do conhecimento dos dados da empresa, para que a gente tivesse chegado naquele momento com mais respostas para os investidores que gostariam de ter as coisas mais consolidadas para que eles pudessem tomar uma decisão.”

“Fundraising é uma arte, um processo continuado. Você nunca deve começar a pensar em investimento somente quando está precisando. Porque isso pode alterar os múltiplos, aumentar a diluição. E colocá-lo em uma situação difícil, em que você vai precisar de uma grana para crescer e não vai ter. É importante ter essa visão do processo como um todo, seguir um cronograma estruturado, buscar sempre mentorias e apoio de pessoas que já passaram por processos como esse, para que você consiga entender um pouco mais e consiga formular a sua identidade de captador para que você tenha sucesso nesses processos”.

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Sobre a Kaleydos

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